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Alicerce

Euribor explicada: como chega mesmo à tua prestação

A Euribor não a inventa o teu banco. Vê o mecanismo exato — indexante, spread, revisão — e a conta de quanto sobe a prestação se ela subir 1 ponto.

Publicado a 27 de julho de 2026

A 24 de julho de 2026, a Euribor a 6 meses estava em 2,723%. Ninguém no teu banco decidiu esse número numa reunião. Ele nasceu em Bruxelas, resultado de um cálculo que corre todos os dias úteis, sem qualquer ligação ao spread que o teu gestor de conta te propôs. Perceber onde acaba a Euribor e onde começa a decisão do banco é a diferença entre ler as notícias com ansiedade e lê-las a fazer contas.

O que é, na prática

A Euribor (Euro Interbank Offered Rate) é a média das taxas a que um painel de bancos europeus diz estar disposto a emprestar dinheiro uns aos outros, sem garantias, em euros. Não é o preço que tu pagas — é o preço no mercado grossista, entre bancos, que depois serve de referência para (quase) tudo o que é crédito indexado na zona euro, incluindo o teu.

Quem publica o número é o EMMI (European Money Markets Institute), em Bruxelas, todos os dias úteis. É uma instituição, não um banco específico, e o cálculo segue uma metodologia regulada — o que explica por que a Euribor de hoje é a mesma quer peças um crédito na Caixa, no Santander ou em qualquer outro banco. O que muda de banco para banco é o spread que somam por cima, nunca o indexante em si.

Três prazos, três leituras do mercado

A Euribor não é um número único — publica-se a 3, 6 e 12 meses, e cada prazo reflete uma expectativa diferente sobre o que vai acontecer à política monetária. A 24 de julho de 2026, os três valores eram: 3M em 2,488%, 6M em 2,723% e 12M em 2,993%.

Repara na progressão: quanto mais longo o prazo, mais alta tende a estar a taxa. Isto acontece porque a Euribor a 12 meses incorpora a expectativa do mercado sobre onde vão estar as taxas de juro ao longo do ano seguinte, não só agora — se os investidores anteciparem subidas, o 12M sobe primeiro. O 3M, por ser mais próximo do presente, reage mais depressa a qualquer mudança da política do BCE, mas custa menos oscilar porque cobre menos tempo.

Como isto chega ao teu contrato

A taxa que realmente pagas — a TAN (Taxa Anual Nominal) — resulta de uma soma simples: Euribor do prazo escolhido + spread fixado pelo banco no contrato. O spread é a margem do banco e mantém-se praticamente inalterável durante todo o crédito (só muda, tipicamente, se deixares de cumprir alguma condição comercial, como domiciliar o ordenado). A Euribor é que se mexe.

A revisão não acontece ao segundo: o teu contrato define uma periodicidade — de 3 em 3, de 6 em 6 ou de 12 em 12 meses — e nessa data o banco recalcula a prestação usando, normalmente, a média da Euribor do mês anterior à revisão. Entre revisões, a prestação fica congelada, mesmo que a Euribor suba ou desça todos os dias.

A conta: 200 000 €, Euribor 6M, spread 0,9%

Vamos ao exemplo concreto. Um crédito de 200 000 € a 30 anos, indexado à Euribor a 6 meses (2,723%) com spread de 0,9%, tem uma TAN de 3,623%. A prestação mensal, pelo sistema de prestação constante, fica em 911,88 €.

CenárioEuribor 6MTANPrestação mensal
Atual (24-07-2026)2,723%3,623%911,88 €
Se subir 1 ponto3,723%4,623%1 028,04 €

A diferença é de 116,16 € por mês — quase 1 394 € por ano a mais, só por a Euribor ter subido um ponto percentual. É esta mecânica, e não o humor do banco, que faz a prestação oscilar quando as notícias falam em subidas ou descidas das taxas do BCE. Se quiseres testar o teu próprio cenário — outro capital, outro prazo, outro spread — o simulador de prestação faz esta conta em segundos.

3M, 6M ou 12M: uma escolha de temperamento

Aqui está o ponto central: escolher entre Euribor a 3, 6 ou 12 meses não é uma questão de matemática financeira, é uma questão de como preferes sentir a variação. Com a 3M, a prestação ajusta-se com mais frequência, mas cada ajuste tende a ser pequeno — sobes ou desces um pouco a cada trimestre, seguindo o mercado de perto. Com a 12M, passas o ano com a mesma prestação, mas quando a revisão chega, o salto pode ser maior, porque absorve de uma vez tudo o que mudou nesses doze meses.

Não há prazo “certo” — há o que combina melhor com a tua tolerância a incerteza. Quem prefere previsibilidade de curto prazo, mesmo com mais ajustes, tende para o 3M ou 6M. Quem prefere não pensar nisso durante um ano inteiro, mas aceita que a revisão seguinte pode doer mais, escolhe o 12M.

Quando a Euribor foi negativa

Entre 2015 e 2022, a Euribor passou longos anos em terreno negativo — e ao contrário do mito, em Portugal não há nenhum «travão a zero» que proteja os bancos: a Lei n.º 32/2018 obriga as instituições a refletir integralmente a Euribor negativa, mesmo que ela coma parte do spread. Se a soma Euribor + spread descer abaixo de zero, o valor a favor do cliente é abatido ao capital em dívida nas prestações seguintes. O que ficou claro desse período é que a Euribor pode mesmo ir abaixo de zero — não é uma curiosidade teórica, já aconteceu durante anos seguidos.

Fixa, variável ou mista, em quatro frases

Taxa fixa: a TAN não muda durante o período acordado (ou todo o crédito), pagas sempre o mesmo, e o risco da Euribor subir passa para o banco. Taxa variável: segues a Euribor escolhida em tempo real, com as descidas e as subidas que isso implica. Taxa mista: começas com um período fixo (normalmente os primeiros anos) e depois transitas para variável, combinando previsibilidade inicial com exposição posterior ao indexante. Nenhuma das três é objetivamente melhor — depende do que consegues (e queres) absorver se a Euribor subir.

Se estiveres a comparar propostas de bancos diferentes, vale a pena saber que existem intermediários de crédito registados no Banco de Portugal, pagos pelo banco e não por ti, que podem apresentar várias propostas em paralelo — não é obrigatório fechar sozinho a primeira que aparecer.

A tua próxima conta

Já sabes como a Euribor se transforma em prestação — falta ver o número que te toca a ti, com o teu capital, o teu prazo e o spread que te propuserem. É essa conta, incluindo o efeito de subidas ou descidas do indexante, que o próximo simulador faz por ti.

A tua próxima pergunta tem simulador.

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Fontes

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